REGRAS PARA SE FAZER O POEMA VARANO

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

NAS TERRAS DE MARRUÁ





















─ Nas estradas que eu trafego
Muitas histórias carrego
Pois é nisso que eu me apego
E sempre volto pra cá!
─ Vi um dia o Jesuíno
Lá no bar de Valdivino
A falar do seu destino
Nas terras de Marruá!

Era um cabra valentão
Fumava, cuspia no chão
Dois palmos tinha sua mão
E ele mentia que só!
Sempre contava vantagem
De vitória e vadiagem
Em mil e uma viagem
Mentia de fazer dó!

O cabra falava tanto
Que eu calado ali no canto
Quase que até me levanto
Pra mandar ele parar!
Foi quando entrou ‘mineirim’
Com cara de ‘coitadim’
Se abancou lá num ‘cantim’
Pra ‘mode’ ao cabra escutar...

O cabra olhou de soslaio
Meteu a mão num balaio
Fez do seu jeito um ensaio
Olhando pro ‘mineirim’...
Disse: Em terra de valente
Caipira fica sem dente
Pois mais mineiro que gente
Já mandei lá pros ‘confim’!

Mineirim coçou a testa
Disse: ocê, home, num presta!
Hoje a burra desembesta
Causquieu num fujo de briga!
Eu vou achatá sua venta
Causqui sua cara é nojenta
Façocê cumê pimenta
Inté tê dor de barriga!

O cabra arrancou a faca
Disse: vem, cara de vaca
Te achato que nem pataca.
E engalfinharam-se os dois!
Era coice, igual na baia
Pontapé, rabo de arraia
‘Ispritu’ de malafaia
Como em briga de dois bois!
  
O negócio ficou feio
Gente em volta, eles no meio
Mais parecia um rodeio
Sem proteção, sem cercado
Voava pé de chinelo
Chapéu, bainha, cutelo
Naquele belo duelo
Até vir o delegado

Delegado viu a briga
Faca riscando barriga
E ele ali fazendo figa
Pra ninguém se machucar
Foi quando o povo apartou
E a briga ali terminou
Delegado então falou
Vam’agora conversar!

Gritou alto o mineirim:
Eu só briguei um cadim
Purcaus quiele disse a mim
Quieu só sei dançá catira!
Mostrei pra ele, dotô,
Doncovim e proncovô
Pra respeitá eu, ô sô!
Com honra sou caipira...  

Delegado foi além:
─ Se o caipira é do bem
Eu o respeito também.
Falo como delegado!
Hoje eu vi briga de fato
Acerto dos dois no ato
Foi briga de cão e gato
Nenhum dos dois é culpado!

Delegado Celestino
Disse então a Jesuíno
Que desde que era menino
Morador da trizidela
Queria ver um duelo
Como aquele... assim tão belo!
Disse mais: Pegue o chinelo
E volte pra Currutela!

..........................................
Como a desse Jesuíno
Com mineirim no destino
Eu cá comigo imagino
Estórias que ouço cá!
Vou levando a vida em paz
Destino a gente é quem faz
Aprendi isso, rapaz
...Nas terras de Marruá!


domingo, 17 de setembro de 2017

VEREDAS... TANTAS...

















Nas veredas mais distantes,
nos longes da flor da idade,
caminhei sem ter saudade,
brinquei todos os instantes,
os calmos e os excitantes,
entre as ramas e os cipós,
trançados quais fossem nós,
com água dando no peito...
vi jacarés... dei meu jeito
e atravessei igapós!
  
Nunca gostei de chapéu;
andei em carros de boi,
ouvi sapos ‘foi-não-foi’,
deitei na grama, vi o céu,
nuvens de ‘algodão’ ao léu...
Pude ouvir os colibris
e o cantar das juritis,
das jaçanãs e nhambus...
Comi amoras, cajus,
carambolas, sapotis...


Não vi o tempo na esteira;
era o presente que eu via;
e a vida pra mim sorria!
Sério só de brincadeira;
subia, descia ladeira;
o mundo era meu inteiro;
se derradeiro ou primeiro,
era assim, feito pra mim;
e eu achava não ter fim,
fosse janeiro a janeiro!
  
Hoje a vida me faz graça...
Solta-me pouco na rua,
não há serestas à lua,
nos velhos bancos da praça...
É vida pela vidraça,
retratos, recordações
de amores e corações...
..................................
Mas...fiz o feito bem feito,
não há remorso no peito,
tampouco... desilusões!...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

NUMA RUA DO PASSADO






















Hoje volto àquela rua,
que há muito tempo não vejo;
olho em volta e, em vão, procuro
o rosto que inda desejo...
As árvores já cresceram;
as mais antigas morreram,
como o velho do realejo!

Sou como estranho no ninho;
os daqui não me conhecem.
As casas têm muros altos;
algumas nem aparecem;
é gente andando com pressa!
Olho a placa... a rua é essa!
...E os jardins ainda florescem!

Nessa rua morava ela,
a Mariquinha assanhada;
sempre que eu aparecia,
era a minha namorada;
era um flerte, um namorico...
ela era do Tonico
...e ele não sabia de nada!
  
Continuo na minha andança.
Vou ao bar do seu Manoel;
ando um pouco até a esquina;
eu era freguês fiel;
comprava ali a cerveja...
Quem sabe lá eu reveja
algum bardo ou menestrel!

Dessa vez eu não errei.
Encontrei um amigo meu,
já grisalho e barrigudo!
Disse: “Muito aconteceu!
Tá vendo aquela janela?
Não é mais a casa dela...
E seu Manoel... já morreu!”

Não consegui dizer nada;
a minha voz se calou!
Meu amigo percebeu
e, em seguida, completou:
“Mas tenho uma boa surpresa:
Veja atrás... mas que beleza!”
......................................
...Mariquinha me abraçou!




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

DÊ VIDA






















Derrame, como o sol, raios de luz;
a todos contagie com alegria;
se alguém se sente triste, com apatia,
sorria-lhe e a tristeza se reduz!

Perdoe se alguém o mal tão bem conduz;
por certo, não é luz que ele irradia.
Demonstre que é no bem que ela reluz,
com boas atitudes, dia a dia!

O céu bem pode estar ao nosso alcance,
se o bem for praticado, a cada lance,
na estrada tortuosa da subida;

mas, faça-o sem intenção de emolumentos!
− Alegre-se e dê vida a seus momentos
...e todos à sua volta terão vida!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

DIA DO ESCRITOR (25 de JULHO)





















Escreves tu o que pensas
Ou não pensas quando escreves?
Entre dúvidas imensas,
Dúvidas longas ou breves,
Procuras o que escrever,
Porque sentes o prazer,
Que é quase como um dever;
É a arma com que te atreves!

Escritor, tu és baluarte!
És a luz na escuridão,
És profissional da arte,
Da qual és o bastião!
Consegues viajar o mundo,
A perscrutar o submundo
Do rico ou do moribundo,
Com a arte no coração!
  
Contas vidas em teus contos,
Deleitas o teu leitor!
Fazes rir, ou o deixas tonto
Em tramas ricas de amor!
Ah, escritor, que seria
Da orquestra sem maestria,
Do artista sem galeria
Do jardim sem uma flor?...

Assim és tu para nós,
Que farejamos os livros!
Fazes, desfazes os nós,
Passas histórias em crivos,
Inventas mil personagens,
Fazes-nos criar imagens
Enfeitadas com paisagens,
Fazes-nos teus fiéis cativos!...

Hoje é teu dia, escritor,
É 25 de julho!
De nós mereces louvor...
Compraze, pois, com orgulho!
Vamos ler as tuas linhas,
Desvendar as entrelinhas,
Conhecer reis e rainhas...
Dar em teu livro um mergulho!

terça-feira, 5 de julho de 2016

DE VOLTA















Eu vi, naquele dia, teu rosto lindo,
mas parecias longe, em pensamentos...
Voltei no tempo àqueles bons momentos,
em que eu te contemplava a mim sorrindo...

Tu não me viste, claro, fui seguindo,
apaziguando, em mim, os meus tormentos,
agora, bem mais brandos, sem lamentos,
nas cinzas do que foi amor infindo...

Teu rosto me seguiu por esses anos,
à sombra de penosos desenganos,
vazio de esperanças e perdão...

No dia em que te vi, eu nem sabia
que tu também sonhavas que, algum dia,
de novo me darias teu coração!

domingo, 3 de julho de 2016

SANTAIADA












Eu dou vivas a São Pedro
dei vivas a São João.
São José tá no meu nome
que só não tem esse São.
Santo Antônio camarada
me arrumou u’a namorada
com cintura de pilão!

Lá no céu também tem santa
como a Santa Genoveva
que antes de ir lá pra cima
tirava o povo da treva.
Era nascida na França
onde alguém desde criança
sem querer seu nome leva.

Mas louvo a todos os santos
que labutam lá no céu.
Me dou bem com todos eles
pra eles tiro o chapéu!
Peço a vocês que respeitem
e rezem quando se deitem
pois cada santo é um troféu!

Do céu vêm santos e santas
que não dá nem pra contar.
Se espalham pelo universo,
nem padre sabe o lugar;
tem alguns pelas igrejas...
(se houver santas sertanejas,
me avise que vou louvar!)

Tem santo gordo, tem magro,
tem santo feio e bonito
tem santo muito barbudo
tem santo que é esquisito
tem moreno, branco, preto...
tem santo impresso em folheto
e o grande São Benedito!

Tem santo casamenteiro
tem do povo endividado
tem das causas impossíveis
tem de solteiro e casado;
mas o que tem mais no mundo
é o santo que é vagabundo
− senador ou deputado!

Louvo à maioria dos santos,
quase toda a santaiada;
louvo a santa lá do céu
e a Santinha ali sentada,
que prepara o meu café,
em quem mais eu boto fé,
pois é comigo casada!

Nunca louvei a São Nunca
porque nunca me lembrei;
nunca vi a cara dele;
também nunca procurei;
entre os santos lá da igreja,
aqueles que a gente beija,
tem um que eu nunca beijei:

É um santo muito falado
só de lembrar fico rouco;
fazem dele até piada
mas dele sei muito pouco;
dizem que ele era corrupto
(pensei que fosse incorrupto)
− é o Santo do Pau Oco!

Contar tanto santo assim,
vai varar a madrugada;
por cada um que me lembro
tomo outra talagada.
Hoje tem festa no céu!
− Vou lá buscar meu troféu
por cada ‘santa cantada’!